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A gente precisa alfabetizar os homens

O processo de desconstrução precisa começar o quanto antes

27/5/2016, 17:32
4 minutos de leitura

“Olha, mas não toca”. Essa frase mudou minha vida. Escutei isso numa visita à quadra da Beija-flor de Nilópolis, aprendendo com alguém da escola sobre as passistas e tudo mais. Ela está ali sim pra você olhar, babar admirar e tal – e só. Não é pra mexer, pra gritar pra ela e muito menos pra encostar nela. Sequer tocar. Pra mim, toda mulher é tipo a passista desde então.

Como todo homem hétero, não cresci aprendendo a respeitar o espaço feminino. A figura do príncipe encantado, do macho que escolhe a fêmea, do homem que não chora e tudo mais, precisou de muitos anos pra ser desconstruída. Graças às feministas ao meu redor, muita coisa da visão de mundo mudou profundamente. A forma de lidar com o universo feminino tomou outra forma. Levei muito tempo pra entender o quão arraigado é o machismo na minha construção.

A luz no fim do túnel está no direcionamento do debate: a luz jogada sobre o estupro coletivo contra a menina de 16 anos tem direcionado a sociedade a discutir a cultura do estupro, e não simplesmente o já fatídico “estuprador tem que morrer”. Só consigo bater palmas para toda a luta dos direitos humanos e das feministas, fundamentais pra esse direcionamento.

Nós, homens, precisamos fazer um pouco mais o dever de casa pra essa alfabetização continuar. Ouvir mais e respeitar mais. Aprender com as mulheres. Garantir, no meio das discussões da rapazeada, que as pautas das mulheres sejam levadas a sério. A dor de uma mulher precisa ser a dor de todo mundo – não só das mulheres, mas dos homens também. A cada homem que deseja fazer as coisas direito, cabe a missão de alfabetizar o outro. É um lance africano, “ubuntu“, onde a cortesia e generosidade valem mais.

Vamos parar de separar os homens dos meninos pra começar a transformar os meninos em homens

‘Ser homem’ nunca foi uma questão de gênero. ‘Ser homem’ tem a ver com atitude. Tem a ver com amadurecimento e deixar as atitudes infantis pra trás. Tem a ver com desenvolvimento pessoal e não tem nada a ver com sexualidade. Sou sensível pra caramba, uso óculos estiloso, consigo chamar um outro cara de bonito, faço amizade com mulher sem ter vontade de agarrá-la e nem por isso deixo de ser hétero.

As mulheres não são indefesas, mas isso não significa que vamos ficar quietos quando elas forem atacadas.

Graças ao meu processo de alfabetização, aprendi que quando eu estiver num local e o espaço de uma mulher for negado por um homem, eu TENHO que me manifestar. Não existe escolha, como HOMEM eu não tenho outra opção senão tomar partido. E essa intervenção não pode acontecer porque a mulher não tem capacidade de se defender. Ela precisa acontecer porque as mulheres não estão sozinhas, porque muito homem machista só dá ouvido a outro homem, porque são milênios de silêncio diante do abuso contra a mulher e por aí vai.

Não pode haver espaço para “você não merece ser estuprada porque você é feia”. Não pode haver espaço para dizer que o feminismo é vitimismo. Não pode haver espaço para “mal amada”, “mal comida” e afins.

Na Baixada Fluminense, esse rolê tá longe de estar perdido

Os machistinhas que se cuidem. As mulheres na Baixada Fluminense estão cada dia mais mobilizadas. Através da cultura, mulheres fantásticas têm alfabetizado um número cada vez maior de homens e ensinado esse bê-a-bá.

Vale procurar pelo Coletivo Fulanas de Tal, que usa a poesia como ferramenta pra discussão de gênero. Tem as meninas que usam o rock’n roll como forma de expressão no Roque Pense e ainda fazem outras ações. A galera do rock tá tão representada que tem banda feminista, a Pornograma, se apresentando por aí. Agora tem a recém-lançada Facção Feminista Cineclube, que de caçulinha não tem nada. Além desses coletivos, existem muitos outros, pela glória e honra da queda do patriarcado.

Os meninos precisam aprender com essas matriarcas a serem homens. Precisam amadurecer. Precisam aprender a se comportar em sociedade e eliminar pela raiz os problemas que cercam o ser feminino na sociedade.

Precisamos transformar os meninos em homens.

Wesley Brasil

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Comunicador, especializado em projetos de alto impacto para a Baixada Fluminense. Fundou o Site da Baixada em 2006, acreditando numa Baixada Fluminense melhor através do amor.

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